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Sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Turismo, história e cultura do Acre

História

Movimento dos seringueiros: história, empates e legado no Acre

O movimento dos seringueiros nasceu no Acre nos anos 1970 para impedir a derrubada da floresta e a expulsão das famílias dos seringais. Com os empates, a liderança de Wilson Pinheiro e Chico Mendes e a criação das reservas extrativistas, mudou a forma como o Brasil olha para a Amazônia.

Tiago da Silva CândidoPorTiago da Silva Cândido 11 min de leitura
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O movimento dos seringueiros foi a organização dos trabalhadores extrativistas da Amazônia, com força maior no Acre, para defender a floresta e o direito de continuar vivendo nela. Ganhou corpo nos anos 1970, quando fazendeiros vindos de outras regiões passaram a comprar os antigos seringais, derrubar a mata e expulsar as famílias. Os seringueiros responderam com sindicatos rurais e com os empates, mobilizações pacíficas que impediam o desmatamento no próprio local. Lideranças como Wilson Pinheiro e Chico Mendes pagaram com a vida. O movimento deixou como legado as reservas extrativistas, um modelo de conservação que junta proteção ambiental e permanência das populações tradicionais.

A seguir, a história contada em ordem: de onde vieram os seringueiros, por que o conflito estourou, como funcionavam os empates, quem foram as principais lideranças e o que dá para conhecer dessa trajetória visitando o Acre.

Quem eram os seringueiros

Seringueiro é quem extrai o látex da seringueira (Hevea brasiliensis), árvore nativa da Amazônia. O trabalho exige conhecer a mata: o seringueiro percorre as “estradas de seringa”, trilhas que ligam dezenas de árvores, faz o corte na casca de madrugada, volta mais tarde para recolher o látex e depois o defuma ou coagula para fazer a borracha.

A maior parte dos seringueiros do Acre veio do Nordeste, sobretudo do Ceará, em duas grandes levas:

  • Primeiro ciclo da borracha (fim do século XIX e começo do XX): a demanda industrial por borracha atraiu milhares de nordestinos, muitos fugindo da seca. Foi nesse contexto que o território acreano foi ocupado e acabou incorporado ao Brasil.
  • Segundo ciclo, durante a Segunda Guerra Mundial: com os seringais asiáticos sob controle japonês, o governo brasileiro recrutou trabalhadores para a Amazônia. Eles ficaram conhecidos como soldados da borracha.

O sistema de aviamento e o barracão

Durante décadas, o seringueiro viveu preso ao sistema de aviamento. O dono do seringal, o seringalista ou “patrão”, adiantava ferramentas, comida e roupas no barracão a preços altos e comprava a borracha a preços baixos. A dívida quase nunca acabava. Em muitos seringais era proibido plantar roçado ou vender a produção a outro comprador, para que o trabalhador dependesse totalmente do barracão.

Com a decadência da borracha amazônica, muitos patrões abandonaram os seringais. Parte das famílias ficou na mata e passou a trabalhar como “seringueiro autônomo”: cortava seringa, coletava castanha, caçava, pescava e plantava pequenas roças. Essa autonomia, conquistada aos poucos, é o pano de fundo do conflito que viria a seguir.

Tronco de seringueira com cortes e látex escorrendo para a tigela na floresta

Por que o movimento dos seringueiros surgiu

Nos anos 1970, a política federal para a Amazônia priorizava a ocupação por grandes empreendimentos agropecuários, com incentivos fiscais e crédito. No Acre, o governo estadual da época incentivou a venda de seringais a investidores do Centro-Sul, que ficaram conhecidos localmente como “paulistas”, independentemente de onde vinham.

Os novos donos queriam transformar a floresta em pasto. Para isso, precisavam desocupar a terra. As famílias que viviam ali havia gerações, muitas sem documento de posse, passaram a sofrer pressões: ofertas irrisórias de indenização, ameaças, queima de casas e ação de pistoleiros. Muitas foram parar na periferia de Rio Branco ou atravessaram a fronteira para a Bolívia, onde continuaram cortando seringa em condições precárias.

Foi nesse cenário que a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e setores da Igreja Católica, especialmente as Comunidades Eclesiais de Base ligadas à diocese de Rio Branco, começaram a apoiar a organização dos trabalhadores rurais. Surgiram os sindicatos de trabalhadores rurais (STRs), primeiro em Brasiléia e depois em Xapuri, que se tornariam os dois polos do movimento.

Os empates: a resistência pacífica na floresta

A ferramenta mais conhecida do movimento dos seringueiros foi o empate. A palavra vem de “empatar” no sentido de impedir. Quando uma frente de desmatamento chegava a um seringal, os seringueiros da região se reuniam, às vezes centenas de pessoas, e iam até o local da derrubada.

Como funcionava um empate

  1. Aviso: alguém percebia o início da derrubada e avisava o sindicato e as comunidades vizinhas.
  2. Mobilização: famílias inteiras, incluindo mulheres, crianças e idosos, caminhavam pela mata até o acampamento dos peões.
  3. Conversa: em vez de confronto armado, os seringueiros cercavam a área e dialogavam com os trabalhadores contratados para o desmate, muitos deles também pobres, explicando que a derrubada tirava o sustento de outras famílias.
  4. Desmonte: os peões eram convencidos a parar e desmontar o acampamento. Em alguns casos, as motosserras eram retidas até a retirada.
  5. Pressão institucional: em seguida, o sindicato levava o caso às autoridades e à imprensa.

Os empates começaram em meados dos anos 1970, na região de Brasiléia, e se espalharam pelo Vale do Acre. Nem todos tiveram sucesso. Houve prisões, violência policial e reação armada de fazendeiros. Ainda assim, estudiosos do tema costumam apontar que os empates salvaram grandes áreas de floresta e deram visibilidade nacional e internacional à luta.

A presença de mulheres e crianças à frente das mobilizações não era acaso. Tornava mais difícil o uso da força e reforçava o caráter pacífico do protesto.

Principais lideranças

Wilson Pinheiro

Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, Wilson Pinheiro foi uma das primeiras grandes lideranças dos empates. Foi assassinado em julho de 1980, na sede do sindicato. A morte dele provocou forte comoção e mostrou o nível de violência enfrentado pelo movimento.

Chico Mendes

Francisco Alves Mendes Filho nasceu em 1944, no seringal Porto Rico, em Xapuri, filho de seringueiro nordestino. Aprendeu a ler já adulto, com um militante político que vivia na região. Ajudou a fundar o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, participou de dezenas de empates e se tornou o rosto mais conhecido do movimento dos seringueiros.

Chico Mendes teve papel decisivo ao conectar a luta local ao debate ambiental global. Recebeu reconhecimento das Nações Unidas pela defesa do meio ambiente e levou a pauta dos seringueiros a organismos internacionais de financiamento. Foi assassinado em 22 de dezembro de 1988, na porta de casa, em Xapuri. Fazendeiro e filho foram condenados pelo crime. A repercussão mundial da morte acelerou as mudanças que ele defendia.

Outras lideranças

O movimento não se resume a nomes individuais. Raimundo de Barros, Osmarino Amâncio, Júlio Barbosa e muitos outros seringueiros e seringueiras sustentaram a organização nas comunidades. Marina Silva, nascida num seringal do Acre, militou ao lado de Chico Mendes antes de seguir carreira política. Educadores e apoiadores também tiveram papel central, como os envolvidos no Projeto Seringueiro, iniciativa de alfabetização e escolas nos seringais criada no início dos anos 1980.

Do protesto à proposta: as reservas extrativistas

O grande mérito político do movimento dos seringueiros foi não ficar só na resistência. Em outubro de 1985, em Brasília, aconteceu o I Encontro Nacional dos Seringueiros, que criou o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS). Ali ganhou forma a proposta das reservas extrativistas.

A ideia era simples e inovadora: assim como existem terras indígenas, as populações extrativistas deveriam ter áreas de uso coletivo, em terras públicas, onde pudessem viver e trabalhar mantendo a floresta em pé. Ninguém seria dono individual da terra. A comunidade teria o direito de uso, seguindo regras de manejo.

Os passos seguintes foram:

  • Projetos de Assentamento Extrativista, criados pelo Incra no fim dos anos 1980, como primeira forma legal de aplicar a ideia.
  • Reservas extrativistas por decreto, a partir de 1990. A Reserva Extrativista do Alto Juruá, no oeste do Acre, foi a primeira do país, e logo depois veio a Reserva Extrativista Chico Mendes, que abrange áreas de municípios como Xapuri, Brasiléia, Assis Brasil, Rio Branco, Sena Madureira, Capixaba e Epitaciolândia.
  • Inclusão no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), pela Lei nº 9.985/2000, que consolidou a Resex como categoria de unidade de conservação de uso sustentável.

Paralelamente, seringueiros e povos indígenas, antes vistos como rivais na disputa por território, formaram a Aliança dos Povos da Floresta, unindo pautas em defesa da Amazônia. Com o tempo, o CNS ampliou o foco e passou a se chamar Conselho Nacional das Populações Extrativistas, mantendo a sigla.

Linha do tempo do movimento dos seringueiros

Fim do séc. XIX

Migração nordestina e primeiro ciclo da borracha

Anos 1940

Soldados da borracha na Segunda Guerra

Anos 1970

Venda de seringais, desmatamento, sindicatos e primeiros empates

1980

Assassinato de Wilson Pinheiro em Brasiléia

1985

Criação do CNS e proposta das reservas extrativistas

1988

Assassinato de Chico Mendes em Xapuri

1990

Criação das Resex Alto Juruá e Chico Mendes

2000

Resex entram no SNUC (Lei 9.985)

Antes e depois: o que mudou para as famílias

A tabela abaixo resume, de forma geral, a diferença entre a vida no seringal tradicional e o modelo defendido pelo movimento. A realidade varia muito de comunidade para comunidade.

Aspecto Seringal tradicional (aviamento) Reserva extrativista
Terra Pertencia ao patrão; o seringueiro não tinha garantia de permanência Terra pública com direito de uso coletivo das comunidades
Comercialização Venda obrigatória ao barracão, com preços impostos Possibilidade de cooperativas e venda direta
Produção Foco quase exclusivo na borracha Borracha, castanha, açaí, roçados e outros produtos
Floresta Ameaçada pela venda para pecuária Protegida por lei, com plano de manejo
Organização Relação individual e desigual com o patrão Associações e conselhos com participação comunitária

Desafios que continuam

O legado do movimento dos seringueiros é reconhecido no mundo todo, mas as reservas extrativistas enfrentam problemas reais. O preço da borracha natural nativa raramente remunera bem o trabalho, e muitas famílias passaram a criar gado em pequena escala para garantir renda, o que pressiona a floresta. Invasões, extração ilegal de madeira e a falta de serviços básicos, como saúde, escola e transporte, também pesam.

Ao mesmo tempo, há iniciativas de valorização dos produtos da floresta: cooperativas de castanha, produção de borracha para indústrias de calçados e artefatos, manejo comunitário e turismo de base comunitária. O debate sobre como gerar renda mantendo a mata em pé, que os seringueiros puxaram nos anos 1980, continua atual.

Onde conhecer essa história no Acre

Para quem viaja ao Acre interessado no movimento dos seringueiros, alguns lugares ajudam a entender a trajetória:

  • Casa de Chico Mendes, em Xapuri: a casa de madeira onde ele morava e foi assassinado é aberta à visitação e preserva objetos e a ambientação da época.
  • Centro histórico de Xapuri: a cidade, a cerca de três horas de Rio Branco pela estrada, guarda casarões do período da borracha e o clima de cidade ribeirinha.
  • Reserva Extrativista Chico Mendes: algumas comunidades recebem visitantes em roteiros de turismo comunitário, com demonstração do corte da seringa e trilhas na mata.
  • Rio Branco: espaços culturais e bibliotecas da capital reúnem acervo sobre os povos da floresta, e o Parque Chico Mendes homenageia o líder.
Casa de madeira tradicional em rua tranquila de pequena cidade amazônica do Acre

Cuidados e dicas para a visita

  • Confira horários antes de ir: funcionamento de museus e espaços culturais pode mudar. Consulte a prefeitura de Xapuri, a Fundação de Cultura do estado ou os canais oficiais de turismo do Acre.
  • Entrar em reserva exige organização: visitas a comunidades dentro da Resex devem ser feitas com agência, guia local ou associação de moradores. O ICMBio é o órgão gestor das reservas federais e pode orientar sobre regras de visitação.
  • Atenção à estação: no período chuvoso, ramais de terra ficam difíceis ou intransitáveis. O verão amazônico, de seca, costuma facilitar o acesso.
  • Respeite o cotidiano: as comunidades não são cenário. Pergunte antes de fotografar pessoas e casas e prefira comprar produtos locais diretamente das famílias e cooperativas.

Erros comuns ao contar essa história

  • Reduzir tudo a Chico Mendes: ele foi a figura mais conhecida, mas o movimento foi coletivo, com sindicatos, mulheres, educadores e comunidades inteiras.
  • Tratar o movimento apenas como ambientalista: a origem foi a luta pela terra e pelo trabalho. A defesa da floresta era, antes de tudo, a defesa do meio de vida.
  • Confundir empate com confronto armado: a estratégia era pacífica, ainda que tenha enfrentado violência.
  • Achar que a história terminou em 1990: as reservas seguem existindo e enfrentando novos desafios.

Perguntas frequentes sobre o movimento dos seringueiros

O que foi o movimento dos seringueiros?

Foi a organização de trabalhadores extrativistas da Amazônia, com centro no Acre, para resistir à derrubada da floresta e à expulsão das famílias dos seringais a partir dos anos 1970. Usou sindicatos, empates e articulação nacional e internacional.

O que era um empate?

Era uma mobilização pacífica em que seringueiros e suas famílias iam até o local da derrubada e convenciam os trabalhadores contratados a interromper o desmatamento e desmontar o acampamento.

Qual a relação de Chico Mendes com o movimento?

Chico Mendes foi seringueiro, sindicalista em Xapuri e a liderança mais conhecida do movimento. Ajudou a projetar a causa no exterior e a construir a proposta das reservas extrativistas. Foi assassinado em 1988.

O que é uma reserva extrativista?

É uma unidade de conservação de uso sustentável, em terra pública, onde populações tradicionais têm direito de viver e usar os recursos naturais seguindo regras de manejo. A categoria está prevista na lei do SNUC.

Qual foi a primeira reserva extrativista do Brasil?

A Reserva Extrativista do Alto Juruá, no Acre, criada em 1990. Pouco depois foi criada a Reserva Extrativista Chico Mendes, no Vale do Acre.

É possível visitar lugares ligados ao movimento?

Sim. A Casa de Chico Mendes, em Xapuri, é aberta ao público, e algumas comunidades da Resex Chico Mendes recebem visitantes com turismo comunitário. Confirme horários e condições de acesso com os órgãos de turismo e com o ICMBio antes da viagem.

O movimento dos seringueiros mostrou que proteger a Amazônia não exige tirar as pessoas dela. Pelo contrário: quem vive da floresta pode ser o seu melhor guardião. Conhecer essa história, seja nos livros ou percorrendo as estradas de seringa de Xapuri, ajuda a entender a identidade do Acre.

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