Os seringueiros vivem principalmente dentro da floresta amazônica, em reservas extrativistas (Resex) e projetos de assentamento agroextrativista (PAE), morando em “colocações”, pequenas unidades familiares espalhadas pelos antigos seringais. O Acre é o principal território desse modo de vida, com destaque para a Reserva Extrativista Chico Mendes, no vale do Acre, e a Resex do Alto Juruá, em Marechal Thaumaturgo.
Também existem comunidades seringueiras no Amazonas, em Rondônia e no Pará, e uma parte das famílias migrou para as periferias de cidades como Rio Branco depois da crise da borracha. A tabela abaixo resume os principais lugares onde essa população está hoje.
| Onde vivem | Como é | Exemplos no Acre |
|---|---|---|
| Reserva extrativista (Resex) | Área federal de uso coletivo, gerida com o ICMBio | Resex Chico Mendes, Alto Juruá, Cazumbá-Iracema |
| Assentamento agroextrativista (PAE) | Assentamento do Incra voltado ao extrativismo | PAE Chico Mendes (Seringal Cachoeira, Xapuri) |
| Seringais tradicionais | Antigas propriedades com colocações remanescentes | Vales do Purus, Juruá e Tarauacá |
| Cidades e periferias | Famílias que deixaram a floresta após a crise | Rio Branco, Xapuri, Brasiléia, Sena Madureira |
Onde vivem os seringueiros no Acre
No Acre, os seringueiros vivem sobretudo em reservas extrativistas federais criadas a partir de 1990, resultado direto da luta do movimento seringueiro contra o desmatamento. Essas áreas garantem o direito de uso da terra às famílias tradicionais, que podem morar, coletar, plantar roçados e criar pequenos animais, seguindo um plano de manejo.
Reserva Extrativista Chico Mendes
É a reserva seringueira mais conhecida do Brasil. Criada pelo Decreto nº 99.144/1990, tem cerca de 970 mil hectares e se estende pelos municípios de Xapuri, Brasiléia, Epitaciolândia, Assis Brasil, Capixaba, Rio Branco e Sena Madureira. Abriga centenas de famílias distribuídas em colocações ligadas por ramais e varadouros, e leva o nome do líder seringueiro assassinado em Xapuri em 1988.
Reserva Extrativista do Alto Juruá
Localizada em Marechal Thaumaturgo, no extremo oeste do estado, foi a primeira reserva extrativista do país, criada pelo Decreto nº 98.863/1990. O acesso é feito basicamente pelo rio Juruá e seus afluentes, como o Tejo e o Breu, e as famílias combinam a seringa com roçado, pesca, caça e outros produtos da mata.
Outras reservas e assentamentos
O estado tem ainda a Resex Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira, a Resex do Alto Tarauacá, em Jordão e Tarauacá, e a Resex Riozinho da Liberdade, entre Cruzeiro do Sul, Marechal Thaumaturgo e Tarauacá. Entre os assentamentos, o mais famoso é o PAE Chico Mendes, no Seringal Cachoeira, em Xapuri, onde Chico Mendes cortou seringa na juventude. Limites e áreas exatas podem ser conferidos nas páginas oficiais do ICMBio e do Incra.
Como se organiza o território seringueiro
1. Reserva ou seringal
Área maior, cortada por rios, ramais e varadouros.
2. Colocação
Unidade da família, com casa, roçado e criação.
3. Estradas de seringa
Trilhas em laço que ligam dezenas de seringueiras.
4. Comunidade
Escola, posto, igreja e associação reúnem as colocações.
O que é uma colocação de seringueiro
A colocação é o lugar onde a família seringueira mora e trabalha. Ela reúne a casa, o terreiro, o roçado, as fruteiras e as “estradas de seringa”, trilhas em forma de laço que passam por dezenas de árvores de seringueira (Hevea brasiliensis). Colocações vizinhas podem ficar a horas de caminhada umas das outras, o que explica o isolamento de muitas famílias.
Tradicionalmente, cada seringueiro trabalhava em duas ou três estradas, alternando os dias de corte para não esgotar as árvores. O dia começava de madrugada, com o corte da casca, e seguia com a coleta do látex nas tigelinhas e a defumação ou outro processamento para formar a borracha.

Como é a casa do seringueiro
A casa típica é de madeira, suspensa sobre esteios para proteger da umidade, de animais e das cheias. O piso e as paredes costumam usar tábuas ou paxiúba, uma palmeira rachada em ripas, e a cobertura pode ser de palha, como a de jarina ou ouricuri, ou de telha de zinco, cada vez mais comum.
- Estrutura: casa elevada do chão, com assoalho de madeira e escada de acesso, adaptada ao clima úmido da floresta.
- Cozinha: geralmente nos fundos, com fogão a lenha e jirau, uma bancada externa para lavar louça e preparar alimentos.
- Água: vem de igarapés, cacimbas ou poços, e em algumas comunidades há sistemas simples de captação.
- Energia: muitas colocações dependem de placas solares, geradores a diesel ou de programas de eletrificação rural.
- Entorno: terreiro limpo, fruteiras, pequenas criações de galinhas e porcos e o roçado de mandioca, milho e feijão.
Como os seringueiros vivem hoje
Hoje poucos seringueiros vivem só da borracha, porque o preço do látex caiu muito ao longo das décadas. A renda vem de uma combinação de atividades extrativistas e agrícolas, além de programas sociais e, em alguns casos, de pagamentos por serviços ambientais ou do turismo de base comunitária.
| Atividade | Para que serve |
|---|---|
| Borracha e látex | Venda a cooperativas e fábricas, como preservativos e calçados |
| Castanha-do-brasil | Principal fonte de renda na safra, sobretudo no vale do Acre |
| Açaí, copaíba e andiroba | Venda de frutos e óleos para mercados regionais |
| Roçado e farinha | Alimento da família e venda do excedente |
| Turismo comunitário | Hospedagem e trilhas em algumas comunidades, como em Xapuri |
A organização coletiva é parte central dessa vida. Associações de moradores, cooperativas e o Conselho Nacional das Populações Extrativistas, herdeiro do antigo Conselho Nacional dos Seringueiros, representam as famílias na gestão das reservas, ao lado do ICMBio, por meio dos conselhos deliberativos de cada Resex.
Desafios de quem vive na floresta
- Acesso: no inverno amazônico os ramais viram lama e muitas comunidades só são alcançadas a pé, de moto ou de barco.
- Saúde e escola: os postos e as escolas ficam distantes e, em muitas áreas, o ensino vai só até as séries iniciais.
- Pressão sobre a floresta: pecuária e desmatamento avançam sobre partes das reservas, inclusive dentro da Resex Chico Mendes.
- Êxodo dos jovens: parte da nova geração vai para as cidades em busca de estudo e emprego.
Por que os seringueiros foram parar no Acre
A maioria das famílias seringueiras descende de nordestinos, principalmente cearenses, que migraram para a Amazônia em dois grandes ciclos da borracha. O primeiro, entre o fim do século XIX e o início do século XX, trouxe milhares de trabalhadores para os seringais do Purus e do Juruá, numa época em que o Acre ainda pertencia à Bolívia.
O segundo ciclo ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial, quando o governo brasileiro recrutou os chamados Soldados da Borracha para abastecer os Aliados com látex. Muitos nunca voltaram ao Nordeste e formaram as famílias que hoje vivem nas reservas.
Do sistema de aviamento às reservas extrativistas
Por décadas, os seringueiros viveram sob o sistema de aviamento: compravam mercadorias no barracão do seringalista a preços altos e pagavam com borracha, ficando presos a dívidas. Com a decadência dos seringais, a partir dos anos 1970 muitas áreas foram vendidas para fazendeiros do Centro-Sul, que derrubavam a mata para formar pasto.
Foi contra essas derrubadas que os seringueiros organizaram os “empates”, ações em que famílias inteiras se colocavam diante dos peões e das motosserras. Desse movimento, liderado por nomes como Wilson Pinheiro e Chico Mendes, nasceu a proposta das reservas extrativistas, depois incorporada à legislação e hoje prevista na Lei nº 9.985/2000, que criou o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC).
Onde ver e conhecer a vida dos seringueiros
Para quem visita o Acre, o caminho mais acessível é Xapuri, a cerca de 190 km de Rio Branco. Na cidade fica a Casa de Chico Mendes, preservada como memorial, e nos arredores está o Seringal Cachoeira, onde há estrutura de hospedagem e trilhas que mostram o corte da seringa e a coleta de castanha.

- Pesquise o destino: comece por Xapuri e pelo Seringal Cachoeira, que já recebem visitantes com mais estrutura e acesso por estrada.
- Procure operadores locais: prefira guias e agências que trabalham com as associações comunitárias e repassam renda às famílias.
- Confira as regras: visitas a reservas extrativistas podem exigir autorização; consulte o ICMBio e a associação de moradores antes de ir.
- Escolha a época: no verão amazônico, de maio a outubro em geral, os ramais ficam mais transitáveis e as trilhas mais secas.
- Prepare a mochila: leve repelente, roupa leve de manga longa, calçado fechado, lanterna e dinheiro em espécie para compras locais.
Em Rio Branco, o Museu da Borracha e a Biblioteca da Floresta reúnem acervo sobre os ciclos da borracha e a cultura seringueira, boa opção para quem não tem tempo de ir até a floresta. Horários e condições de visita mudam, então vale confirmar com a Fundação de Cultura do estado antes de sair.
Cuidados e erros comuns ao visitar comunidades
O erro mais frequente é tratar a colocação como atração turística, chegando sem aviso ou fotografando pessoas e casas sem pedir licença. A casa do seringueiro é um espaço familiar, e a visita precisa ser combinada antes com a comunidade ou com o guia responsável.
- Chegada sem aviso: muitas famílias não têm sinal de celular, por isso combine a visita com antecedência pela associação ou pelo guia.
- Fotos sem permissão: peça autorização antes de fotografar pessoas, crianças e o interior das casas.
- Lixo na mata: traga de volta tudo o que levar, inclusive embalagens e pilhas, já que não há coleta nas colocações.
- Retirar plantas ou sementes: não colete nada da floresta sem orientação, pois a área é protegida por lei.
- Subestimar distâncias: uma “caminhadinha” na floresta pode levar horas; respeite o ritmo indicado pelo guia.
Perguntas frequentes sobre onde vivem os seringueiros
Ainda existem seringueiros no Brasil?
Sim. Milhares de famílias seguem vivendo nas reservas extrativistas e assentamentos da Amazônia, sobretudo no Acre, no Amazonas, em Rondônia e no Pará. A diferença é que hoje a maioria combina a seringa com castanha, açaí, roçado e outras fontes de renda.
Qual é a maior reserva de seringueiros do Acre?
A Reserva Extrativista Chico Mendes, com cerca de 970 mil hectares em sete municípios do vale do Acre, é a mais conhecida e uma das maiores do país. Ela é gerida pelo ICMBio com participação das associações de moradores.
Os seringueiros são donos da terra onde moram?
Nas reservas extrativistas, a terra é de domínio público, e as famílias recebem o direito real de uso por meio de um contrato de concessão. Elas podem morar e produzir, mas não podem vender a área, o que protege o território da especulação.
Seringueiro e ribeirinho são a mesma coisa?
Não necessariamente. O ribeirinho vive à beira dos rios e depende muito da pesca e da várzea, enquanto o seringueiro tem a extração do látex como marca histórica, morando muitas vezes na terra firme. Na prática, muitas famílias acumulam as duas identidades.
É possível se hospedar na casa de um seringueiro?
Em algumas comunidades, sim, por meio do turismo de base comunitária, como no Seringal Cachoeira, em Xapuri. Disponibilidade, preços e regras variam, por isso consulte operadores locais, a associação da comunidade e o órgão estadual de turismo antes de planejar a viagem.
Por que muitos seringueiros foram morar na cidade?
A queda do preço da borracha, a venda dos seringais para fazendeiros nos anos 1970 e 1980 e a falta de escola e saúde na floresta empurraram muitas famílias para as periferias de Rio Branco e de outras cidades. Bairros inteiros da capital foram formados por ex-seringueiros.
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