Os conflitos entre seringueiros e madeireiros no Acre se intensificaram nos anos 1970, quando antigos seringais foram vendidos a investidores do Centro-Sul para virar pasto. Para impedir o desmatamento, os seringueiros criaram os empates, liderados por Wilson Pinheiro e Chico Mendes, ambos assassinados. A luta resultou nas primeiras reservas extrativistas do Brasil, criadas em 1990.
Na prática, o “madeireiro” e o “fazendeiro” muitas vezes eram a mesma frente: as turmas de peões derrubavam a floresta, aproveitavam a madeira de valor e depois queimavam o restante para plantar capim. Por isso, a história acreana costuma tratar essas disputas como um único conflito pela terra e pela floresta.
| Lado | Quem eram | O que queriam |
|---|---|---|
| Seringueiros | Famílias que viviam da borracha e da castanha | Floresta em pé e direito de permanecer nas colocações |
| Fazendeiros | Compradores de seringais, muitos vindos do Centro-Sul | Converter a mata em pasto para gado |
| Madeireiros | Empresas e intermediários de extração de madeira | Retirar espécies de valor, como mogno e cedro |
| Sindicatos rurais | STRs de Brasiléia e Xapuri, entre outros | Organizar a resistência e negociar com o governo |
Como começaram os conflitos entre seringueiros e madeireiros no Acre
Os conflitos começaram com a crise da borracha e a mudança da política federal para a Amazônia. Sem a proteção do preço da borracha nativa, muitos seringalistas (os antigos “patrões”) estavam endividados e venderam suas terras. Ao mesmo tempo, o governo militar oferecia incentivos fiscais pela Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) para projetos agropecuários na região.
No Acre, o governo estadual do início dos anos 1970 fez propaganda das terras acreanas no Centro-Sul como oportunidade barata de investimento. Os compradores ficaram conhecidos localmente como “paulistas”, mesmo quando vinham de outros estados. O problema é que as terras vendidas não estavam vazias: havia milhares de famílias de seringueiros morando nas colocações, muitas há gerações, sem título de propriedade.
O que acontecia com as famílias expulsas
As famílias eram pressionadas a sair com indenizações baixas, ameaças ou destruição de roçados e barracos. Muitas migraram para a periferia de Rio Branco, onde formaram bairros novos sem infraestrutura. Outras atravessaram a fronteira e foram trabalhar em seringais da Bolívia, especialmente na região de Pando, vizinha a Brasiléia e Epitaciolândia.
Por que a madeira entrava nessa disputa
A derrubada da mata era a primeira etapa da formação de fazendas, e a madeira nobre representava uma receita imediata. Árvores como mogno, cedro e cerejeira eram retiradas antes das queimadas. Além disso, a castanheira e a seringueira, que sustentavam os extrativistas, eram derrubadas junto, eliminando de uma vez a fonte de renda das famílias.
O que foram os empates dos seringueiros
Os empates foram a principal forma de resistência pacífica dos seringueiros: grupos de homens, mulheres e crianças iam até o local da derrubada e se colocavam diante das turmas de peões para impedir o corte. A ideia não era o confronto armado, mas convencer os trabalhadores a largar as motosserras e forçar a negociação.
- Aviso: moradores avisavam o sindicato quando uma turma de desmatamento chegava a um seringal ou colocação.
- Mobilização: o sindicato reunia dezenas ou centenas de seringueiros de colocações vizinhas, muitas vezes caminhando horas pela mata.
- Ocupação da frente: o grupo se postava entre os peões e as árvores, formando uma barreira humana.
- Conversa com os peões: lideranças explicavam que os próprios trabalhadores também eram explorados e pediam que desmontassem o acampamento.
- Pressão política: os empates eram usados para chamar atenção de autoridades, imprensa e, depois, de organizações internacionais.
Linha do tempo da luta dos seringueiros
Anos 1970
Venda de seringais e avanço de fazendas e derrubadas
1976
Primeiros empates organizados em Brasiléia
1980
Assassinato de Wilson Pinheiro em Brasiléia
1985
Criação do Conselho Nacional dos Seringueiros
1988
Assassinato de Chico Mendes em Xapuri
1990
Criação das Resex Alto Juruá e Chico Mendes
Quem foram os líderes dos seringueiros
Os dois nomes mais lembrados são Wilson Pinheiro e Chico Mendes, mas a resistência foi coletiva e envolveu centenas de famílias, mulheres seringueiras, padres e agentes ligados às Comunidades Eclesiais de Base e à Comissão Pastoral da Terra, além da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), que apoiou a formação dos sindicatos.
Wilson Pinheiro
Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, Wilson Pinheiro é apontado como o principal articulador dos primeiros empates. Foi assassinado a tiros em julho de 1980, na sede do sindicato, em Brasiléia. Sua morte provocou uma reação de trabalhadores contra um capataz acusado de envolvimento no crime e marcou a fase mais tensa do conflito na região.
Chico Mendes
Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes, nasceu em Xapuri, filho de seringueiros, e ajudou a fundar o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. Ele levou a luta para o cenário nacional e internacional, defendendo que proteger a floresta e proteger quem vivia dela eram a mesma causa. Foi assassinado em 22 de dezembro de 1988, na porta de casa, em Xapuri.
O crime foi cometido por Darci Alves Pereira, filho do fazendeiro Darly Alves da Silva. Os dois foram condenados pelo Tribunal do Júri de Xapuri em 1990. A repercussão mundial do assassinato pressionou o governo federal a acelerar a criação das áreas protegidas reivindicadas pelos seringueiros.

Como a luta levou às reservas extrativistas
A proposta de reserva extrativista surgiu do próprio movimento: em vez de lotes individuais, como na reforma agrária tradicional, os seringueiros pediam áreas de floresta pública com uso coletivo garantido às famílias. A ideia ganhou forma no primeiro encontro nacional dos seringueiros, em Brasília, em 1985, quando foi criado o Conselho Nacional dos Seringueiros (hoje Conselho Nacional das Populações Extrativistas).
Antes das reservas, o Incra criou os Projetos de Assentamento Extrativista, como o do Seringal Cachoeira, em Xapuri, área que havia sido palco de um dos empates mais conhecidos. Em 1990 vieram as primeiras reservas extrativistas federais. Depois, a Lei nº 9.985/2000, que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), consolidou a Resex como categoria de uso sustentável.
| Área | Onde fica | Destaque |
|---|---|---|
| Resex do Alto Juruá | Marechal Thaumaturgo, Vale do Juruá | Primeira reserva extrativista do Brasil, criada em 1990 |
| Resex Chico Mendes | Xapuri, Brasiléia, Assis Brasil, Rio Branco e outros municípios | Quase 1 milhão de hectares no Alto Acre |
| PAE Chico Mendes (Seringal Cachoeira) | Xapuri | Assentamento extrativista criado após empate |
O caso do Alto Juruá
No Vale do Juruá, o conflito tinha um perfil um pouco diferente do Alto Acre. Ali, os seringueiros enfrentavam o sistema de aviamento dos patrões, que controlavam a venda de mercadorias e a compra da borracha, e a pressão de exploradores de madeira ao longo dos rios. A criação da reserva, em janeiro de 1990, garantiu às famílias o direito de uso da área e rompeu com a dependência dos antigos barracões.
Como estão esses conflitos hoje
Os conflitos não desapareceram, mudaram de forma. Dentro e no entorno das reservas, há pressão de criação de gado, abertura de ramais, extração ilegal de madeira e queimadas. Parte dos próprios moradores passou a criar gado por falta de renda com a borracha, o que gera debates internos sobre os limites do plano de manejo de cada unidade.
Por outro lado, surgiram alternativas legais de renda com a floresta, como o manejo florestal comunitário, a coleta e beneficiamento de castanha-do-brasil, a produção de borracha para indústrias específicas e o turismo de base comunitária. A gestão das reservas federais cabe ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em conjunto com conselhos deliberativos formados por moradores e instituições. Dados atualizados de desmatamento podem ser consultados nos sistemas de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Diferença entre manejo legal e extração ilegal
- Manejo autorizado: depende de plano aprovado pelo órgão ambiental, com inventário das árvores, ciclo de corte e limites por hectare.
- Extração ilegal: retirada sem licença, muitas vezes de espécies protegidas, com documentos de origem fraudados ou inexistentes.
- Uso tradicional: moradores podem usar madeira para casas, canoas e benfeitorias, conforme regras do plano de manejo da unidade.
Onde conhecer essa história no Acre
Quem visita o estado pode refazer parte desse caminho. O principal destino é Xapuri, a cerca de 180 km de Rio Branco pela BR-317, onde fica a casa de Chico Mendes, preservada como espaço de memória, e o túmulo do líder seringueiro no cemitério da cidade.
- Casa de Chico Mendes (Xapuri): residência simples de madeira onde ele foi morto, mantida com objetos e documentos da época.
- Seringal Cachoeira (Xapuri): área ligada à infância de Chico Mendes, com experiências de turismo de base comunitária e trilhas na floresta.
- Brasiléia: cidade do sindicato de Wilson Pinheiro, na fronteira com Cobija, na Bolívia.
- Museu da Borracha (Rio Branco): acervo sobre o ciclo da borracha, a vida nos seringais e a formação do Acre.
Horários de visitação, regras de acesso e disponibilidade de hospedagem nos seringais mudam com frequência. Antes de viajar, confira com a secretaria de turismo do estado, a prefeitura de Xapuri ou os responsáveis por cada espaço.

Erros comuns ao contar essa história
- Resumir tudo a Chico Mendes: a resistência começou antes dele ganhar projeção e envolveu muitas lideranças, inclusive mulheres e jovens.
- Tratar seringueiros como contrários a todo desenvolvimento: eles defendiam um modelo de economia baseado na floresta em pé, não o isolamento.
- Separar totalmente madeireiros e fazendeiros: na prática, a derrubada para pasto e o comércio de madeira andavam juntos.
- Achar que o conflito acabou em 1990: as reservas garantiram direitos, mas a pressão sobre a floresta continua.
- Confundir empate com invasão: os empates eram ações de moradores para defender as áreas onde já viviam.
Perguntas frequentes
Por que os seringueiros entraram em conflito com madeireiros e fazendeiros?
Porque a derrubada da floresta destruía seringueiras e castanheiras, que eram a base do sustento das famílias. Sem a mata, os seringueiros perdiam renda e eram expulsos das colocações onde viviam.
O que significa “empate” na história do Acre?
É o nome dado à ação coletiva e pacífica em que seringueiros se colocavam diante das turmas de desmatamento para impedir a derrubada. A palavra vem da ideia de “empatar”, ou seja, impedir, atrapalhar o andamento do serviço.
Quando e onde Chico Mendes foi assassinado?
Em 22 de dezembro de 1988, na porta de sua casa, em Xapuri. O crime teve repercussão internacional e acelerou a criação das reservas extrativistas.
Qual foi a primeira reserva extrativista do Brasil?
A Reserva Extrativista do Alto Juruá, no Acre, criada em janeiro de 1990. A Resex Chico Mendes, no Alto Acre, foi criada pouco depois, em março do mesmo ano.
Ainda existe exploração de madeira nas reservas extrativistas?
Existe manejo florestal comunitário autorizado em algumas áreas, com plano aprovado e regras de corte. Também há registros de extração ilegal, fiscalizada pelo ICMBio e por outros órgãos ambientais.
É possível visitar os lugares ligados à luta dos seringueiros?
Sim. Xapuri concentra os principais pontos, como a casa de Chico Mendes e o Seringal Cachoeira. Rio Branco tem museus sobre o ciclo da borracha. Confira horários com os órgãos de turismo antes de ir.
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