Brasil fica fora do Escudo das Américas e vê risco de interferência dos EUA
Planalto avalia que coalizão liderada por Donald Trump pode ampliar influência sobre setores estratégicos latino-americanos.
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva justificou a ausência do Brasil no Escudo das Américas, grupo liderado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que reuniu 13 países latino-americanos na Assembleia da ONU, na terça-feira (22). Segundo interlocutores do Planalto, a iniciativa pode abrir espaço para interferência americana em áreas como economia, infraestrutura e gestão de riquezas nacionais.
O Brasil não foi convidado a integrar a coalizão, formada para combater facções ligadas ao crime organizado. Na avaliação do governo brasileiro, uma eventual ampliação do escopo do grupo poderia atingir acordos firmados por países latino-americanos com a China, rival econômica dos Estados Unidos, sob o argumento de segurança continental.
Preocupação com setores estratégicos
A leitura do Planalto se apoia na Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, divulgada pelo governo Trump no ano passado. O documento estabelece como objetivos americanos a predominância no Hemisfério Ocidental e a garantia de acesso a minerais críticos e terras raras nas Américas.
Auxiliares de Lula avaliam que o Escudo das Américas pode ser usado para ampliar a influência de Washington sobre recursos estratégicos dos países da região. O governo também vê as propostas de segurança continental e de combate ao crime organizado como formulações pouco definidas.
Especialista vê efeito limitado no combate às facções
Para Cecília Olliveira, diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado, a adesão ao grupo teria efeito restrito no enfrentamento ao crime organizado no Brasil. Ela afirmou que o acordo representa, na prática, o reconhecimento formal de facções como organizações terroristas, mas não enfrenta o principal desafio do país.
Segundo a especialista, o combate às redes criminosas depende de investigações integradas entre Polícia Federal, polícias estaduais, Receita Federal, Ministério Público e órgãos de controle. Para ela, operações que seguem recursos ligados a empresas, fundos, fintechs e patrimônios das organizações são mais eficazes do que mudar a classificação jurídica das facções.
Cooperação deve continuar
O Planalto prevê manter o trabalho conjunto contra organizações criminosas com países vizinhos que aderiram ao Escudo das Américas. De acordo com o governo, essas parcerias podem continuar sem que o Brasil participe da coalizão comandada pelos Estados Unidos.
A avaliação interna é que a ausência brasileira não deve provocar efeito imediato na eleição prevista para 4 de outubro. Interlocutores do governo esperam que Washington aguarde o resultado da primeira etapa da votação antes de reavaliar eventuais estratégias para o segundo turno.
Com informações de correiobraziliense.com.br.
Foto de capa: Palácio do Planalto from Brasilia, Brasil/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)